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Antes de mais, quero deixar um agradecimento ao Tiago Carita pelo tempo que dispensou para responder às minhas questões e ao Ivan Barroso por nos ter posto em contacto. Também deixo um agradecimento especial ao Nélio Códices que me enviou bastantes screenshots deste jogo, juntamente com material de todos os outros projectos em que trabalhou na Ydreams.

Lex Ferrum foi um multiplayer hack n’ slash que tinha como característica diferenciadora a utilização da localização real dos jogadores que comunicavam e competiam entre si via Bluetooth. Esta foi uma produção conjunta da YDreams com a Nokia que contou com Tiago Carita enquanto game designer, sendo também responsável pela arte 3D e animação, Pedro Lopes e António Lobo na arte 2D e na programação Antão Almada, Mário Franco, Hugo Abreu e Eurico Moita.

Foi criado em 2003, após um período de desenvolvimento de dois meses a pedido da Nokia, para demonstrar as capacidades da sua recém-lançada N-Gage. Tiago Carita afirma que era “uma plataforma pouco inovadora em termos de hardware”, sendo bastante semelhante ao Nokia N60, mudando apenas o visual para also mais próximo de uma consola. Tinham como missão criar um jogo que utilizasse as ligações Bluetooth e conseguisse reunir mais de 100 pessoas no mesmo espaço, pensado para a apresentação da consola na Nokia Conference 2003, evento realizado em Portugal.

O jogo centra-se numa feroz batalha entre guerreiros Mouros, Nórdicos e Ibéricos pelo controlo de Akio, um reino sagrado tomado por espíritos malignos. Os jogadores são convidados a escolher um dos lados, por entre três personagens disponíveis, saltando de imediato para a acção, enfrentando inimigos próximos e espíritos mortais.

Os guerreiros podiam escolher de entre machados, espadas, cimitarras e feitiços mágicos que podem ser comprados de centros de recursos reais – cenários decorados com armamento variado e altares localizados em volta da área utilizada para o Nokia Conference. Quando um jogador chegava a um dos cenários, o jogo imediatamente activava a cena correspondente no ecrã. Nestes locais também podiam ser compradas poções mágicas e armamento para uma ajuda suplementar no campo de batalha.

Aqui, cada alma era de extrema importância: as personagens mortas tornavam-se ghouls e deveriam retirar a energia vital de um inimigo vivo ou procurar um padre para voltar à vida. No final, apenas um nome seria lembrado – o mais bravo guerreiro vivo seria declarado o herdeiro do trono de Akion, líder do seu povo.

Após cada batalha, o jogador adquiria experiência, podendo subir de nível, recebia algum ouro e se ao procurar novos desafios não encontrasse um adversário compatível enfrentaria um oponente controlado por Inteligência Artificial.

No evento tinham, ainda segundo Carita, “duas capelas medievais com um padre a fazer cânticos, existia também um bruxo com um caldeirão fumegante e um armeiro a bater ferro, um em cada canto do evento. Se chegasses perto dessas zonas o teu Bluetooth detetava e entravas na loja onde podias ser ressuscitado pelo padre, comprar scrolls no bruxo ou armas e armaduras no ferreiro.”

Mas tiveram um problema inesperado: “se puseres mais de 10 pessoas no mesmos 50m2 com Bluetooth da época a tentar conectar-se era impossível, quanto mais 100. Lembro-me do pânico dessa semana e o desespero pois tecnologicamente não funcionava. Os BTs mal se viam uns aos outros e a conexão era impossível mas os requisitos eram claros, tinhas que combater com alguém a tua volta.”

Após alguma luta finalmente conseguiram arranjar uma solução: “Quando estava muita gente à [tua] volta, o Bluetooth no scan só conseguia saber os IDs de cada aparelho mas não se ligavam entre eles.” “Como não era possível conectar direto, usávamos o GPRS entre telemóveis e se não houvesse banda (que era limitada) lançavas um AI. Desta forma parecia que estavas a ligar via BT [a] centenas de pessoas.”

Após a apresentação do jogo no evento, a YDreams, até com o apoio da Nokia, ainda tentou expandi-lo, tendo sido criado um design document que adicionava “layers de combate, conteúdo personagens, missões”, mas a nível financeiro foi difícil justificar o investimento à empresa. Disponibilizou-o, no entanto, posteriormente para licenciamento a operadores que tivessem interesse em fornecê-lo aos seus subscritores. Como a versão final foi apenas concebida para ser utilizada em eventos e não houve lugar a qualquer conversão/expansão por falta de interesse das várias entidades envolvidas, o projecto foi dado como encerrado.

Fiquem com alguns screenshots que consegui recuperar da época. Espero eventualmente conseguir ter acesso a arte promocional/renders, se for esse o caso, também serão aqui partilhados.